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sábado, 30 de junho de 2012

Passagem de uma Noite Austera


Na TV, um documentário biológico sobre o corpo humano. O que a respiração e a falta dela causam. O garoto batuca a cigarro no cinzeiro, exala a fumaça e prende a respiração. Seu coração acelera mais rápido do que esperava, seu peito começa a doer e trinta segundos mais tarde, ele está exalando como se tivesse corrido uma maratona.

De repente, o canal sai do ar – deixando-o um eterno ignorante quanto ao que acontece no pulmão de um fumante. A TV fica estática, mas ele vê os pequenos grãos negros formarem caminhos na tela branca e se embolarem até ele perder a noção. São grãos negros ou são brancos? Sente sua boca semiabrir, como se sua língua tornasse-se ligeiramente mais grossa e pesada. Ele se inclina para frente, apoiando os cotovelos sobre os joelhos, ele quer descobrir se—

“O que você ‘tá fazendo?”

Um sobressalto que quase o faz pular para fora do sofá e cair sobre o tapete fofo que seus pés esmagam e seus dedos acariciam.

“Eu queria saber se—”

E ele descobre que o que ele queria saber é estúpido demais para se falar. Assim, encarando seu olhar de impaciência, um revirar de olhos à esquina do presente, o garoto desiste de dizer algo.

E o outro bufa. E revira os olhos. E murmura algo que à direita do sofá é impossível de se entender, mas o tom de voz conota tantas coisas que um dos corações presentes no cômodo dói, apertado demais entre a caixa torácica. A respiração acelera e a vista embaça. Dedos se contorcem nos pêlos macios do tapete e no estofamento nodoso do acento.

Na tentativa de se acalmar, acende outro cigarro entre os dedos trêmulos por causa do alto nível de cafetina no sangue e inspira. E inspira mais fundo, até que seus pulmões doam e nenhum oxigênio ou fumaça sejam capazes de passar por seus brônquios. Ele prende a respiração por alguns segundos, saboreando o ardor nos pulmões e na garganta, percorrendo um caminho morno tão íntimo quanto intocado.

Ele não sabe se já se passaram trinta segundos, mas seu peito volta a doer, então ele expira todo o oxigênio e fumaça, que faz um longo, curvilíneo, tortuoso e translúcido caminho perolado à sua frente. Da cor dos ossos em raios-x.

“Você vai acabar tendo um ataque cardíaco” – e pela primeira vez naquela noite monótona e quieta, inquietante, ele ouve algo que se parece com preocupação. Tem um quê disso. Uma linha tênue que cria uma teia ao redor de seu coração, aprisionando-o, puxando-o em direção a algo que em sua cabeça é necessário ser seguido. – “Parece que quer morrer logo de uma vez. Mas eu sei que você não teria coragem.”


E de repente, o enlaço fica mais frágil. A teia tem uma espécie de debate. Ela não pode puxar, pois assim arrebentaria, mas ela não pode simplesmente continuar lá, em uma infinita inércia. O sentido e a necessidade se perdem durante o caminho.

“Eu teria.”

“Não, você não teria.”

E do jeito que é falado é quase como um apelo. E ele se vê perdido e desamparado e confuso quanto ao seu rumo. Nunca nada faz sentido em seus percursos.

“Não sou suicida” – diz. E não sabe o porquê, mas sente que é necessário apontar isto. Ele não é. Ele não diz, contudo, que ele já pensara sobre, ou que já tivera vontade. Ou como ele sempre pensa. Ou como ele sempre acha que esta é a solução de seus problemas. E ele não menciona que uma vez ele se escondeu embaixo da cama e chorou tanto, mas tanto e o dia todo que a única coisa que o impediu de buscar uma faca e acabar com a sua vida bem naquele momento foi a vergonha de encarar as pessoas. Porque ele não estava sozinho, nem nunca estaria.

“Eu sei que não.”

Um silêncio se instala. E ele é leve, calmo e sem exigências. Como o silêncio antes de ir dormir depois de um dia cansativo. A TV continua na estática, jorrando uma iluminação prateada sobre os dois, o sofá e o restante da sala. Um traga o cigarro longa e pensativamente, olhando fixamente para a tela. Olhar perdido.

E então ele começa a se lembrar de tantas coisas que se mesclam a outras e no fim, ele não sabe mais por que começou a pensar sobre aquilo, mas agora ele está pensando. E de repente, a atmosfera está mais pesada. Seu peito dói mais e o cigarro pesa entre seus dedos. A fumaça começa a sufocá-lo, o colarinho da sua camisa o enforca lentamente e ele se remexe, e o puxa, tentando esgarçar a blusa e obter um pouco mais de oxigênio, mas nada funciona. As palavras relembradas o sufocam como se tivessem sido ditas um segundo atrás. Dói e machuca tudo o que toca, e queima, e arde, e é agonizante. Agonizante porque ele sabe que é verdade, ele sabe que nunca mudará, ele sabe que nasceu assim, então aquelas palavras o prendem a uma predestinação dolorosa, a uma vida que ele sabe estar preso. E isso o machuca mais que tudo, porque ele é. Ele é e não há nada que vá fazê-lo deixar de ser.

Suas mãos estão apertadas de encontro ao sofá nodoso. Ele se força a abri-las, a desenterrar as unhas da carne esbranquiçada da palma das mãos. Força-se a se esquecer de que a todo o momento, ele o olha e diz coisas como se—

“Eu fosse uma aberração.”

O sussurro é tão baixo que as palavras saem desengonçadas, roucas e quebradas de sua boca. Ele exala mais fumaça de seu cigarro e fecha os olhos. A estática da TV não é mais interessante. Nada mais é. Ele odeia esses momentos. Quando nada parece ser certo. Quando uma coisa leva a outra e a outra, e tantas outras coisas levam a vários caminhos, cada um mais tortuoso, e humilhante, e doloroso que o outro e nesses momentos ele só quer se trancar no quarto, encolher-se debaixo das cobertas e chorar porque nada mais faz sentido. Só a dor. Porque a dor existe e explica tudo. A ardência, o sangue, a cicatriz, tudo é mais simples.

“Quê?”

Sua voz é afiada como uma faca e o faz encolher-se tanto quanto.

“Pensando alto...”

“Em quê?”

“Em nada.”

“Você faz isso de propósito” – e mais lembranças vêm à tona, porque ele nunca esquece ofensas. Aonde quer que vá, elas são levadas também. Chega ao ponto em que ele percebe não se lembrar da maioria dos acontecimentos, mas apenas das sensações de ódio, ira, tristeza, decepção, rancor. Ele as cataloga pelo nível de tristeza em que elas o colocaram. O resto é esquecido: onde, porquê, como, quando. Não importa. O que resta são as mágoas. – “Você só quer atenção.”

“Não quero.”

“Claro que quer.”

Outro cigarro é aceso e—

“Você não sabe fazer outra coisa além de fumar não?”

Uma de suas mãos procura pelo controle remoto. Qualquer coisa que desvie sua atenção. Ele respira fundo o ar poluído do cômodo.

“Quer saber?” – pergunta, olhando para as mãos trêmulas. – “Quero ficar sozinho.”

Pequeno momento insípido no qual ao seu lado só há um ar de inquietação e surpresa.

Whatever, man.”

E somente um deles se levanta, movimentando o sofá de leve. Isso o faz se sentir tão pequeno e frágil, ele não entende o porquê disso. Talvez por lhe lembrar de que no final, a única coisa que lhe resta é a solidão, com ninguém por perto pra consolá-lo porque todos foram embora.

“Só lembre que eu penso no seu bem.”

As palavras sobem à sua garganta com uma facilidade quase programada, mas elas são naturais, tão naturais que seus lábios se partem para pronunciar a primeira delas, mas ele se impede de dizê-las. Você não pensa em nada.

Outro silêncio se faz presente. Um mais denso e perturbador. De um lado, cheio de palavras não ditas, do outro, cheio de palavras que não conseguem formular uma frase. O último morde o lábio, pestaneja, troca o peso de perna, não sabe o que fazer. Até que ele desiste e sai pela porta de entrada.

A teia se enfraquece; tão frágil e ínfima que ele se pergunta como ela resistiu por tanto tempo. Como ela ainda resiste apesar dos pesares. Tão raquítica que seu coração começa a se tornar insensível à sua presença. E o caminho ao qual ela o leva, já não tem mais importância. Em suas prioridades, ele é secundário. Mas sempre estará lá. Uma força constante que o guia sempre a uma direção rochosa e sinuosa, de trilha incerta. Sempre se fortalecendo por palavras impensadas que vêm do fundo da alma, do coração. Sempre levando a um lugar no qual haja a promessa de redenção. Mas tornando-se fraca por palavras impensadas e rudes, verdadeiras – porque nada machuca mais que a verdade. Palavras cuja origem vem da percepção. Palavras que tem o poder de te levar aonde você não quer ir, aonde não tem volta depois de frequentado. Seu âmago.
 A todos que "acreditam" em mim.

domingo, 4 de março de 2012

Entre Ondas

A onda molhou meus pés e a sensação fria correu pela minha coluna, me arrepiando. Ergui meu braço e vi os pelos claros arrepiados.

“É lindo, não é?” – ele perguntou e eu o encarei por alguns poucos segundos, necessários para eu entender que ele se referia ao mar à nossa frente.
Era imenso e estava tão calmo lá, bem no fundo, onde o oceano se juntava com o céu branco, cheio de nuvens cinza e uma neblina rasa mais abaixo.

Sim, era lindo, mas não houve necessidade de respostas, nunca houve.

Estávamos calados há bastante tempo, só olhando e admirando, recebendo as ondas fracas que se chocavam contra os nossos pés descalços, nos desequilibrando de leve enquanto a areia vinha e voltava arrastada pelas ondas espumosas.

Senti a necessidade de falar algo. Qualquer coisa que cessasse aquela ansiedade, aquele nervosismo. Acabar com aquele silêncio calmo como o som das ondas ou tranquilo como o céu branco neve, mas eu não tinha o que falar.

Parecia-me, também, que quando eu fosse falar eu teria que pigarrear para continuar. Não me importei e disse a primeira coisa que me veio à cabeça:

“No que” – limpei a garganta – “No que você está pensando?” – perguntei.

Ele franziu as sobrancelhas no mesmo momento em que se virou para mim. Seus olhos castanhos com íris maiores que o normal mostravam confusão enquanto ele inclinava a cabeça de leve.

Ele era adorável.

“Não agora, naquela hora” – expliquei, voltando a olhar o oceano. Mas logo voltei a encará-lo. Ele era bem mais alto que eu e para olhá-lo nos olhos eu precisava inclinar ligeiramente a cabeça para cima. 
Me perguntava, afinal, se ele reparava que meus olhos ficavam mais claros assim, com toda a luz daquele enorme céu sobre eles. – “Sempre pensamos em algo enquanto observamos uma paisagem bonita…”

Ele suspirou e eu esperei. – “Primeiro eu pensei em História” – ele soltou uma risadinha pelo nariz e eu continuei esperando. – “Quando as pessoas pensavam que a Terra era quadrada, mas depois eu pensei se havia alguém na mesma situação que a minha, se perguntando a mesma coisa.”

“Se perguntando se” – hesitei – “existem alguém na mesma—”

“Não” – ele me interrompeu. – “Se no final estamos sempre sozinhos. Se um dia eu encontro alguém em quem eu consiga confiar...” – explicou, suspirando de leve enquanto fitava seus pés – “se perguntando tudo isso na beira da praia, sozinho com seus pensamentos.”

Ele era adorável, repeti para mim.

“Você encontra” – disse – “você encontra sim.” – repeti como se isso fosse dar mais verossimilhança à frase.

“Às vezes, acho que sim, e, às vezes, acho que não” – ele murmurou como se estivesse me contando um segredo. Sua voz baixa enquanto uma ave piava ao longe, talvez uma gaivota. – “É muito complicado essas coisas…” – sua voz ficou mais baixa, quase mais baixa que o som das ondas – “Meus avôs estão juntos até hoje” – disse e por um momento seu olhar desenhou uma rota até o fim do oceano, onde ele se encontrava com o céu e parecia que caso seguisse reto, ele chegaria lá, onde ninguém alcança, onde todos sonharam em estar quando inocentes. – “Mas meus pais não” – concluiu e seu olhar se perdeu, como se o lugar onde ele estivesse prestes a chegar desmoronasse à sua frente. 

“É complicado...” – respondi, tentando ajudá-lo em suas questões escondidas em lugares profundos dentro dele. – “Mas… pode parecer besteira, mas, às vezes, eu sinto demais” – murmurei baixinho, meio com vergonha de confessar esse tipo de sentimento que eu tenho. – “E na maioria das vezes que eu estou com você, eu sinto que você vai ser feliz” – ele sorriu timidamente, uma mistura de emoção e embaraço. – “Você é o tipo de pessoa que merece isso.”

Ele me olhou e eu o olhei, e por mais que ele fosse maior que eu, eu o sentia tão pequeno, e choroso, e inocente. E ele desviou o olhar, ainda sorrindo de leve, talvez feliz por estar esperançoso, otimista. Nem que fosse apenas por um curto momento.

Voltei a encarar aquele ponto bem distante que parecia inalcançável para quem observa da beira da praia, mas ele me chamou a atenção.

“Oi?”

“E no que você estava pensando?”

Respirei fundo. Abri a boca, mas voltei a fechá-la quando novamente uma gaivota piou ao longe. As ondas ficando cada vez maiores e mais fortes na mesma proporção que o vento pegava mais velocidade.

“Eu me perguntava o que você sentia” – encarei-o de volta. Se os olhos dele fossem castanho-esverdeados, eles estariam verdes agora. – “Eu não quero que você se sinta mal, nem quero que você sofra.”

Ele voltou a fitar seus pés e eu os olhei por curiosidade. Uma água-viva flutuava perto deles e ele se abaixou para pegá-la daquele jeito certo que não queimava a palma da mão. – “Noventa e oito porcento de água, hum?” – ergueu os olhos e me encarou e eu fiz o mesmo e o encarei. – “É como se” – ele hesitou, meio em dúvida no que falar – “elas fossem o seu próprio habitat” – semicerrei os olhos, não entendendo o que ele queria dizer. – “Como alguém poderia se sentir sozinho assim? Vazio? Como se não pertencesse ao lugar ao qual vive?” – ele me perguntou e eu sacudi a cabeça de leve. – “Como alguém não poderia?” – ele soltou uma risada amarga e se agachou, sentando-se na beira da praia no exato momento em que uma onda chocava-se contra meus pés e as tíbias dele.

Olhei para ele em confusão e ele deu dois tapinhas na areia ao lado dele. Olhei para as ondas que voltavam, para o ponto inalcançável e para o céu –  que parecia se acabar exatamente naquele ponto apenas para se transformar em água – sendo riscado por duas gaivotas voando em círculos.

Por que não? Me sentei.

“Isso é um saco…” – ele murmurou, ainda com a água-viva na mão.

“Eu sei” – concordei meio reticente. – “Sabe…” – disse, mas me calei. Eu sentia frio agora que da cintura para baixo, tudo meu estava molhado.

“O quê?” – ele disse, despejando a medusa na água.

“Conheci alguém” – disse de volta e ele me olhou estranho. – “Eu acho que estou gostando de alguém” – expliquei.

Ele me olhou surpreso, virando-se de frente para mim. – “Quem?”

“Eu não sei o nome dele” – murmurei. – “Na verdade, ele não deve nem notar a minha existência...” – olhei para ele e novamente ele me olhou estranho, confuso. – “Eu só o observo” – suspirei.

“Então como você pode dizer que está gostando dele?” – sua voz soou alta demais para meus ouvidos, era como se ele estivesse gritando que eu era superficial.

“É algo na voz dele, na calma que ele aparenta ter” – comentei, estranhando somente agora eu estar gostando de alguém que fosse calmo – se é que ele fosse isso. – “E quando ele olha para mim” – sorri amargamente, desviando meu olhar, repousando a lateral do meu rosto em meus braços cruzados sobre os joelhos – “eu sinto que ele sabe que me conhece de algum lugar. Sabe… desconhecidos íntimos?” – perguntei, olhando para ele. – “Talvez se eu o conhecesse melhor, eu não gostasse dele, ou não sentisse tudo o que eu sinto quando eu o vejo agora... talvez tudo isso acontecesse, mas talvez não, e é por isso que eu prefiro não me arriscar. Eu prefiro ficar aqui, de longe, observando-o e sentindo todas essas coisas. Todas essas coisas que eu sempre quis sentir” – murmurei, fechando os olhos enquanto a imagem dele me vinha em mente como nas tantas outras vezes que eu me forcei a imaginá-lo. – “O jeito como as coisas que eu acho feias ficam bonitas nele quase me assusta, às vezes.” – disse mais para mim do que para ele, quase um sussurro de voz rouca. – “Você me acha idiota por isso?” – perguntei, abrindo meus olhos e encarando-o. Ele tinha uma expressão tão triste e piedosa que me fez sentir insegura e pequena.

“Não” – ele disse – “tudo bem em fugir, às vezes.” – e ele se aproximou de mim, passando seus braços sobre os meus ombros e me puxando mais para perto. Deitei minha cabeça na curva entre seu ombro e pescoço e suspirei, abraçando-o de volta.



  • 10/09/2010

domingo, 15 de maio de 2011

Sobre se Perder e Esconder

A gente é assim, vai se perdendo nos outros, se perdendo na gente, se perdendo dos outros, se perdendo da gente até que percebe que está na hora de se encontrar. Encontrar em algo, em alguém. Em algum cheiro, em algum lugar, em algum livro, em algum amigo.

A gente vai se perdendo no alheio, esquecendo-se das vontades não nossas, mas dele, esquecendo que as pessoas são uma alma presa em um labirinto, por vezes, intocável.

Vai seguindo em frente, buscando, escavando, procurando por aquilo que deseja das outras pessoas. Aquela intimidade sutil, aquele sorriso espontâneo, o pedido de desculpas cheio de remorso, aquele “eu quero estar com você” não falado, mas timidamente evidente.

Até que a gente muda de foco sem perceber. Não queremos mais a pessoa como ela é, mas a queremos nos amando, nos entendendo, nos aceitando, respeitando, nos querendo.

Estou me fazendo entender? O que quero dizer é que, às vezes, nós temos o azar – essa necessidade triste – de irmos preocupando-nos com o que a pessoa sente da gente e não com a pessoa em si. A gente ressalta que ela existe como um ser humano que é sujeito à decepção e vai se deixando perder naquele sentimento especial, naquele conforto, nos gestos, nos olhos, nos abraços. Tudo muito cheio de culpa, cheio de segredos que não quer revelar.

A gente vai se tornando tão egoísta, sabe? Só querendo, necessitando, ansiando, desejando. A gente se torna mesquinho e egoísta com a falta de amor. Queremos aquela pessoa só para gente.

Não é estranho? Não é estranho que não liguemos – mesmo que sem querer, sem querer de verdade, assim sem intenção de fazer sofrer – para quem amamos contanto que sejamos amados?

Não é isso o que eu quero dizer. Nos importamos, sim, claro que nos importamos. Mas é que em um ponto do caminho, parece que a gente esquece que aquele ser humano tem vontades, tem uma vida, tem uma história, tem seus segredos, suas dores e, principalmente, um sorriso que esconde tudo isso e tudo aquilo.

Aí percebemos que existe, sim, algo por trás de toda aquela fachada – que afinal, é só mais uma fachada. Algo bem assim como a gente. Algo que sofre, que chora, que grita, que se machuca, que anseia por amor tanto quanto nós mesmos. Algo como nós.

Por isso que é complicado se perder em alguém na busca de tentar achar a pessoa que é. Precisa de cuidado extra, atenção múltipla e muita perseverança. Nem todos são labirintos fáceis; têm uns que têm monstros, pesadelos, esquinas sombrias, armadilhas e tudo o que nem pensamos existir.

Às vezes, só queremos nos perder, mas não estamos dispostos a abrir nossas janelas e deixar alguém entrar. Como pode tanto egoísmo? Como se pode coexistir assim? Mas é aquela sensação de fraqueza, de insegurança, de impotência, de incapacidade. É que o medo nos leva a inventar personalidades odiáveis que nem sabíamos da existência.

Mas a gente aprende – tem sempre alguém que aprende. A gente vai aprendendo a aprender, a perseverar, a esquecer – os traumas, as tristezas, os amores perdidos, as sensações de vazio, de incompetência, o desespero – e vamos conseguindo viver assim, na medida do possível, tentando não afastar pessoas que saibam demais da gente – ou pelo menos um pouquinho mais que todo mundo – nos dando aquela sensação de insegurança, fragilidade, como se nossos defeitos estivessem todos expostos, todos os nossos medos e segredos.

Mas é assim, a gente aprende. Com o tempo, a gente aprende a aprender.

É sempre nisso que eu tento pensar. Fecho os olhos, respiro fundo, medito por um momento e repito para mim em voz alta para evocar a confiança: “Com o tempo, a gente aprende a aprender”, aí repito novamente: “A gente aprende a aprender”. Repito assim, baixo e lentamente para a frase entrar na cabeça. Que assim a frase ecoa em meus pensamentos, e não importa quão pequena seja a quantidade de vezes que ela chegue a ecoar, porque nesses curtos instantes eu realmente consigo acreditar que sim, a gente aprende a aprender.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Polos

Havia algo no sorriso dele.

Seu olhar era sempre distante, opaco, melancólico. Desviava fácil dos olhos de algumas pessoas e se perdia na parede, ou na costura do ombro alheio, na nuvem que estivesse perpassando o céu, ou nos detalhes do piso, do asfalto. Era desses que gostava de observar tudo.

Seu sorriso era triste. Era verdadeiro; ele não sorria por educação, embora fosse um rapaz extremamente educado. Do tipo que não pensa duas vezes antes de dizer “Me desculpe” ou pedir “Com licença”. Suas frases sempre seguidas de “por favor” e um “obrigado”.

Mas era triste. Escondia uma tristeza que nem todos conheciam ou conheceriam. Todo um mundo era escondido por trás daquele sorriso que, mesmo sincero, não chegava aos olhos. Toda uma vida, todo um mistério, um sofrimento, um labirinto.

Seus olhos eram grandes e levemente caídos no canto externo. Eram doces, mas afiados. Eram bonitos, eram sinceros, eram perfeitos para a pessoa que ele era.

Quando perturbado, colocava uma mecha – geralmente do lado esquerdo, era canhoto – para trás da orelha. E era isso o que ele fazia agora. Ele não dizia nada enquanto eu dizia tudo. Tudo o que viesse em mente. Tudo o que estivesse me incomodando, tudo o que eu achava que o incomodava. Mas ele continuava calado.

Às vezes ele falava, xingava, gritava, quebrava coisas, colocava tudo para fora. Sua língua era tão ferina quanto unhas de gatos. Suas palavras machucavam e formavam cicatrizes que demorariam a cicatrizar. Então brigávamos e ficávamos dias sem falar. Mas ele era sempre o cavalheiro educado, charmoso, consciente de seus – e meus – defeitos e vinha com aquela conversa mansa, cheia de entendimentos que terminava na cama.

No final, ele me fazia perceber que era a pessoa mais especial que existia. Sabia conversar sobre tudo. Música, literatura, pintura... Artes em geral. Ele dizia que sem a Arte, não haveria humanidade, não haveria mundo. Não haveria sequer vida.

Mas geralmente ele só se martirizava, escutando calado, tentando não jogar na minha cara o que sabia que me machucaria. Daí eu tentei ser uma melhor versão de mim mesmo, para ele. Tentava decifrar suas expressões, seus silêncios e acho que no fim, eu me perdi em seu labirinto.

Em algum ponto, começamos a ser o que não éramos. Nos amávamos tanto que esse amor acabou por nos afastar um do outro. Era como um de seus romances. Enveredados para a tragédia, embaralhados com uma mistura de esperança, mas no fim, sem já sabermos disso, ela desapareceria como o sol ao chegar da noite.

Ele sempre gostou da liberdade, da sinceridade, da honestidade e eu o estava prendendo a algo que ia de encontro aos ideais dele. Eu estava ancorando o nosso romance a algo que talvez não devesse mais existir.

Eu o amei tanto que eu me tornei cego a ponto de achar que ele não perceberia o que eu estava fazendo. Logo ele, o cara mais inteligente que já conheci. O que sempre sacava as tiradas sarcásticas, a ironia que ninguém percebia.

Mas ele percebeu. Percebeu que eu não era mais o mesmo, que só estava tentando ser uma versão melhorada de mim mesmo. E então ele se chateou, ficou triste. Quase não sorria mais. Ele era desses. Entristecia-se, não saía da cama para mais nada. Lutava para comer, se levantar, viver.

Ele queria que eu o surpreendesse a cada dia, que eu fosse nada mais, nada menos do que eu mesmo. Que eu o fizesse chorar e então o fizesse sorrir. Queria que eu continuasse fazendo-o me odiar durante as discussões, mas que o fizesse me amar logo depois daquela transa, onde nossos corpos suados estivessem tão cansados para se mover que acabariam dormindo agarrados um ao outro.

Era tanto amor, tanta ironia. Eu sabia – nós sabíamos – que aquilo se tornaria mais um de seus contos. No final, nosso romance seria eternizado em mais um de seus textos que seria lido, relido, criticado, aclamado.

Viriam perguntas. “Por quê, por que eles terminaram?”, “Por que sempre tão sem esperança?”, “Por que não um final feliz?”. Ele soltaria uma curta risada sarcástica, e faria alguma crítica sobre sempre necessitarmos de um romance perfeito e com um final admirável para continuarmos vivendo em meio a sarjeta.

Sua voz é calma e triste, quando resolve falar: – “Eu amo você” – Eu sei que me ama. E eu sei que mesmo depois disso continuaremos a nos amar. Ele me encara nos olhos.  Como sempre faz com as pessoas pelas quais sente interesse. Olha da cabeça aos pés, observa, parece ler a mente, os pensamentos e então você se sente despido diante dele. Não é difícil encontrar alguém que se sinta intimidado pela sua postura, seu olhar, embora ele seja a pessoa mais doce – e ferina – que eu já conheci.

Eu sei, mon amour. Eu também o amo. E sei que você também sabe disso. Sei que errei, mas sei que você entende o meu erro e me perdoa por ele. Você é tão bom em desvendar meus pensamentos quanto eu aprendi a ser bom em desvendar os seus.

“Mas” – digo o que ele não consegue dizer – “isso não é o suficiente.” – ele continua me encarando. Porque ele é desses; não abaixa a cabeça, enfrenta seus medos de frente. – “Me desculpe” – eu peço, avançando um, dois passos à frente e abraçando-o com força – “eu sinto tanto.”

“Não é só sua culpa, é nossa culpa.” – ele responde; sua voz é grave, rouca, gutural. Me arrepia quando sussurrada.

“Eu amo você, Caio.” – digo bem baixo, perto do ouvido dele. Aquilo parece ser efêmero demais para eu falar longe dele. Esse momento deve ser só nosso pela uma última vez.

“Eu sei,” – sussurra de volta e eu sinto aquele frio percorrer minha espinha – “e eu também te amo.”